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O POTENCIAL HUMANO E A FELICIDADE

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ENTREVISTA COM RICHARD DAVIDSON

12 de julho de 2017

Richard J. Davidson, PhD, é coautor do livro “O estilo emocional do cérebro” que está na lista de mais vendidos do New York Times e ocupa a cátedra William James e a cátedra Vilas de Psicologia e Psiquiatria na Universidade de Wisconsin-Madison, onde também é o diretor do Laboratório Waisman para Imagem e Comportamento do Cérebro. Amigo e confidente do Dalai Lama e considerado pela revista  Time, em 2006, uma das pessoas mais influentes do mundo, Dr. Davidson tem-se destacado amplamente nos media populares, inclusive o programa da ABC Nightline, o National Public Radio, a Time magazine, NewsweekCharlie RoseHarvard Business Review, e O, The Oprah Magazine, além de outros meios de notícias norte-americanas e internacionais

Q: Quais são as melhores formas de se criar resiliência – que é a habilidade de se recuperar depois de momentos difíceis.

Richard Davidson: Práticas simples de mindfulness (atenção plena) que cultivam o reconhecimento básico de que estamos conscientes ajudam, especialmente quando podem ser integradas facilmente no dia-a-dia, em vez de serem apenas praticadas quando estamos sentados na almofada de meditação. Coisas como ir de casa para o trabalho, lavar a louça, caminhar ou limpar a casa trazem oportunidades de fazermos essas tarefas com mais intenção, reconhecendo a consciência. Está com atenção ao que está a fazer, e ao mesmo tempo, reconhecendo no fundo essa qualidade da sua mente e a natureza da consciência. Este tipo de prática, com o tempo, vai levar ao desenvolvimento de resiliência.

Q: Diz então que se estivermos focados, com atenção nalguma coisa – como correr, fazer caminhadas ou andar de caiaque –, isso pode funcionar como meditação?

Richard Davidson: Fazer atividades com atenção possui algumas caraterísticas semelhantes com a meditação, mas é também diferente em aspectos importantes. Quando estamos envolvidos em atos contemplativos intencionais, como meditação, nós invocamos a intenção de que estamos a praticar não diretamente para nós mesmos, mas para o benefício dos outros.

“Cultivar uma mente calma e um coração carinhoso não é apenas bom para nós mesmos – é bom para todos com quem temos contato.”

Quando corremos ou jogamos tênis, normalmente nós não invocamos a intenção de que estamos a fazer isso primordialmente para o benefício dos outros. Mas a poderiamos… e isso poderia mudar a natureza desse tipo de atividade de forma importante. Como praticante, assim como cientista, tenho muitas razões para acreditar que quando fazemos as coisas com uma intenção altruísta, isso produz efeitos diferentes, incluindo efeitos biológicos. Convido as pessoas a tentar – realize as suas atividades de lazer com uma intenção altruísta – e veja o que acontece.

Q: Ver o que há de positivo no mundo, que parece estar tão cheio de notícias ruins, requer um esforço. Por que esse esforço é importante?

Richard Davidson: Em primeiro lugar, a maneira como fez a pergunta está baseada na suposição de que o mundo está realmente cheio dessas coisas ruins. Mas os dados sugerem que não é bem assim. Por exemplo, os casos de violência têm diminuído dramaticamente nos últimos 200 anos – mesmo se incluirmos as guerras, violência com armas de fogo, e terrorismo, há na verdade menos violência hoje do que cem anos atrás.

O motivo pelo qual o mundo parece tão ruim é porque os media amplifica isso. Ao contrário de há 100 anos atrás, nós temos a capacidade para uma amplificação viral. Mas, quando realmente refletimos sobre nossa vida diária, a maior parte das pessoas – não todos, mas a maioria –diria que a incidência de ações positivas é muito maior a cada dia do que a incidência das coisas muito ruins.

“Se trouxermos nossa atenção para os simples e comuns atos de gratidão e de reconhecimento que enchem os nossos dias, nós tornamo-nos mais conscientes desses tipos de atividades, e elas podem-nos ajudar a ver que existe na verdade essa bondade básica, fundamental e inata.”

Nós de fato manifestamos essas qualidades positivas, e os desvios disso são raros. Esses desvios dominam a nossa atenção porque o nosso cérebro é criado para detectar discrepâncias e contrastes. O convite nesse trabalho é prestar mais atenção e estar mais consciente das granularidades da bondade no dia-a-dia.

Q: Por que a capacidade de controlar onde colocamos nossa atenção é uma habilidade importante para o nosso bem-estar? Coisas como apps para treino do cérebro são úteis para aprender a controlar nossa atenção?

Richard Davidson: Estudos mostram que os apps para treino do cérebro tornam-nos melhores naquela atividade específica que estamos a treinar, mas não nos tornam melhores de modo geral. Há muitas coisas diferentes que podemos fazer para treinar nossa atenção, e todas elas envolvem a qualidade do que eu chamaria de consciência meditativa. Ao ler estas palavras neste momento, pode prestar-lhes atenção e percebê-las na página ou no écran, mas também pode monitorar a qualidade da sua consciência. Quão atento está? Há pensamentos a borbulhar na sua mente? Como sente o seu corpo?  Pode aprender a monitorar essas qualidades da consciência que ficam no pano de fundo, sem sacrificar o seu foco no objeto principal. É a isso que chamamos de meta-consciência.

Qualquer prática que envolva esse cultivo intencional de meta-consciência pode levar a uma generalização de habilidades em que, ao contrário dos apps de treino do cérebro, o treino permanece para além do contexto específico. Podemos trazer essa qualidade da consciência meditativa para qualquer coisa – ler as notícias, comer ou conversar – mas é difícil fazer isso no mundo real. É provável que se perca no que está a fazer. Por isso é que praticamos na almofada, para que tenhamos esse estado disponível de forma mais espontânea na vida real.

Q: Pesquisas mostram que as sensações boas que temos quando somos gentis e generosos duram mais que as sensações boas que temos com outras coisas agradáveis. Por que acha que isso acontece e o que isso diz sobre nós?

Richard Davidson:  Ainda não sabemos exatamente neste momento, mas existem teóricos evolucionistas que argumentam que o altruísmo e a cooperação são mecanismos muito importantes na evolução. Pode muito bem ser que esse efeito positivo prolongado que é experienciado quando alguém se engaja em atos de generosidade seja parte de um sistema evolutivo que nos ajuda a manter esse tipo de altruísmo e comportamento pró social, que pode ser um ingrediente chave para um desenvolvimento evolutivo com êxito.

*Traduzido do artigo publicado no site do 1440 Multiversity (https://1440.org/human-potential-and-happiness-an-interview-with-richard-davidson/)


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